Há uma pergunta incómoda que a indústria dos videojogos evita fazer abertamente: a quem pertence uma franquia quando o seu criador original deixa de estar ao leme?
David Jaffe, o homem que concebeu God of War em 2005 e deu ao mundo um Kratos original, furioso e mitologicamente brutal, voltou esta semana a fazer aquilo que melhor sabe fazer: dizer o que pensa, sem filtros e sem a diplomacia corporativa que tanto aborrece. E o que pensa sobre God of War Laufey, o mais recente capítulo da saga da Sony Santa Monica, não é lisonjeiro.
God of War não é indiferente a ninguém
Todavia, antes de nos precipitarmos para um julgamento fácil, convém contextualizar. Jaffe não é um crítico amargo que vê o sucesso alheio com inveja. É um criador com uma visão muito específica do que God of War deve ser: visceral, mitologicamente honesto, sem concessões à sensibilidade contemporânea. A sua crítica ao Laufey não é superficial – dirige-se ao coração da decisão de colocar uma nova protagonista no centro da narrativa e de continuar a afastar a franquia da identidade que ele próprio definiu.
Por outro lado, esta tensão entre criador e continuador não é nova na indústria. George Lucas queixou-se publicamente do que a Disney fez com Star Wars. Os criadores originais de Halo expressaram reservas sobre a direção da 343 Industries. Nomeadamente, o caso de Jaffe é interessante porque ele não foi afastado por conflito – simplesmente deixou de estar envolvido à medida que a franquia cresceu além do seu escopo original. A pergunta que se impõe é: tem Jaffe o direito moral de criticar aquilo que ajudou a criar mas que já não controla?
A resposta honesta é: sim e não. Em contrapartida do que alguns fãs argumentam – que Jaffe deveria “deixar andar” – há uma legitimidade real na sua posição. Ele criou os alicerces. Definiu a linguagem visual, o tom narrativo, a relação entre jogador e protagonista. Quando a Santa Monica Studio decide virar a câmara para Faye e transformar a esposa de Kratos na nova heroína, está a fazer uma escolha que Jaffe claramente considera uma traição à identidade original da franquia. Consequentemente, a sua crítica pública não é gratuita – é a expressão de um criador que ainda sente uma ligação profunda ao que inventou.
E o que se espera agora?
O que este episódio revela, no entanto, é algo mais amplo sobre a natureza das franquias modernas. Uma propriedade intelectual de sucesso inevitavelmente ultrapassa o seu criador. O God of War de 2026 pertence tanto ao Cory Barlog da Sony Santa Monica como ao David Jaffe de 2005 – talvez até mais ao estúdio, porque foi o estúdio que reinventou Kratos com a trilogia nórdica e que criou a base de fãs que justifica um novo jogo. Em contrapartida, ignorar as raízes é sempre um risco. Em suma, Jaffe continua a ser uma voz que vale a pena ouvir – mesmo quando discordamos.
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