A EY está a incentivar os seus consultores mais jovens a passar mais tempo no escritório, defendendo que a ascensão da inteligência artificial tornou as competências interpessoais ainda mais determinantes para conquistar clientes.
A iniciativa, avançada pelo Financial Times, não representa, para já, uma alteração formal da política de trabalho flexível, mas transmite uma mensagem clara: carreiras demasiado dependentes do trabalho remoto podem dificultar o desenvolvimento profissional num contexto cada vez mais marcado pela IA.
Competências humanas ganham importância com a IA
Sayeh Ghanbari, responsável pela área de consultoria da EY no Reino Unido, afirmou ao Financial Times que trabalhar maioritariamente a partir de casa “não é o caminho para o sucesso no mundo da IA”. Segundo a responsável, à medida que as ferramentas de inteligência artificial assumem tarefas rotineiras, como a recolha, tratamento e análise inicial de dados, torna-se mais importante desenvolver capacidades que a tecnologia não consegue replicar facilmente.
Entre essas competências estão a apresentação de ideias, a comunicação clara, a criação de relações de confiança e a interação direta com clientes. Por isso, os parceiros da EY consideram que estas aptidões são melhor aprendidas presencialmente, através da observação e colaboração com colegas mais experientes.
“Vamos ter de reduzir a flexibilidade, mas para ajudar as competências humanas”, afirmou Ghanbari, reconhecendo, no entanto, que muitos profissionais organizaram a sua vida em torno do trabalho remoto. A EY confirmou que os seus parceiros têm recordado aos trabalhadores mais jovens a importância de passarem “tempo significativo juntos” para apoiar o desenvolvimento individual, embora a política formal de flexibilidade permaneça inalterada.
Além disso, Callum Licence, responsável pela área de advisory da KPMG no Reino Unido, defendeu uma posição semelhante. Para o executivo, a IA tornou “mais importante do que nunca” que os profissionais em início de carreira tenham oportunidades para aprender diretamente com colegas mais experientes.
Regresso ao escritório acelera em vários setores
A posição da EY enquadra-se numa tendência mais ampla de regresso ao escritório em setores de trabalho administrativo e de serviços profissionais. De acordo com um inquérito da Johnson Controls divulgado a 27 de agosto, 67% dos trabalhadores já estão no escritório cinco dias por semana, acima dos 57% registados em 2025 e dos 48% em 2024. Ao mesmo tempo, 95% trabalham presencialmente pelo menos três dias por semana.
No setor financeiro, vários líderes têm defendido que a presença física é particularmente relevante para a formação de profissionais juniores. Jamie Dimon, CEO da JPMorgan Chase, tem repetidamente argumentado que os jovens banqueiros precisam de mentoria presencial. Já Satya Nadella, CEO da Microsoft, afirmou que a evolução da IA torna o tempo passado no escritório “ainda mais importante”.
Entretanto, também outras instituições reforçaram as suas regras híbridas. O Santander apertou as exigências relativas à presença física, enquanto o Lloyds Banking Group determinou que os trabalhadores devem regressar ao escritório pelo menos dois dias por semana.
Consultoras e empresas de contabilidade também identificaram uma lacuna de competências entre os licenciados que entraram no mercado de trabalho durante a pandemia. Segundo estas empresas, muitos desses profissionais demoraram mais tempo a desenvolver competências de apresentação, empatia e contacto com clientes do que as gerações anteriores.
Ghanbari reconheceu que, após a pandemia, várias organizações terão desvalorizado a formação em competências humanas, concentrando-se sobretudo em IA e capacitação técnica. Contudo, as empresas estão agora a recuperar esse investimento, através de sessões dedicadas a storytelling, liderança, comunicação e relacionamento com clientes. Para já, a EY opta pelo incentivo, e não por uma obrigação formal de regresso ao escritório.
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