Um aumento de 1900% no custo de publicar links externos no X. Lido assim, sem contexto, o número parece absurdo. Todavia, é precisamente esta a decisão mais recente da plataforma X – antigo Twitter – numa série de medidas que Elon Musk implementou para transformar a rede social numa espécie de jardim murado digital, onde os utilizadores entram mas, idealmente, nunca saem.
De facto, a estratégia não é nova em conceito. O Instagram penaliza algoritmicamente publicações com links externos há anos, e o TikTok construiu todo o seu ecossistema à volta do consumo interno de conteúdo.
Contudo, o que distingue a abordagem do X é a sua brutalidade declarada: em vez de esconder os links através de manipulação algorítmica, a plataforma optou por torná-los financeiramente proibitivos. Consequentemente, criadores de conteúdo, jornalistas e organizações de media que dependem da partilha de links para gerar tráfego viram os seus custos explodir de um dia para o outro.
Rede social X teve grandes melhorias de receita com Elon Musk
Em primeiro lugar, as implicações para o jornalismo digital são profundas. Muitas publicações – sobretudo as mais pequenas – construíram parte significativa da sua estratégia de distribuição em torno do Twitter/X. Além disso, jornalistas individuais utilizavam a plataforma como um megafone profissional, partilhando artigos e análises que geravam tráfego para os seus órgãos de comunicação. Neste sentido, o aumento de custos funciona como uma espécie de portagem editorial que penaliza desproporcionalmente quem produz conteúdo informativo.
Por outro lado, a decisão insere-se na lógica financeira de Musk para o X. A plataforma continua a lutar para recuperar as receitas publicitárias que evaporaram após a aquisição em 2022, e manter os utilizadores dentro do ecossistema aumenta o tempo de exposição a anúncios e a conteúdo monetizável. Importa salientar, porém, que esta lógica só funciona se os utilizadores aceitarem permanecer – e há sinais crescentes de que a paciência está a esgotar-se.
Elon Musk não pretende dar hipótese a concorrentes
Em contrapartida, plataformas concorrentes como o Bluesky e o Threads da Meta têm beneficiado do êxodo progressivo de utilizadores insatisfeitos. O Bluesky, em particular, posicionou-se como o herdeiro espiritual do Twitter pré-Musk, com uma abordagem descentralizada e politicamente neutra que atrai intelectuais, jornalistas e profissionais de tecnologia. Com efeito, cada decisão controversa do X funciona como publicidade gratuita para estas alternativas.
Assim sendo, a questão central não é se o aumento de 1900% gerará receita a curto prazo – provavelmente gerará. A questão é se essa receita compensa a erosão contínua da base de utilizadores e da relevância cultural da plataforma.
Acima de tudo, o X de Elon Musk parece estar a testar uma hipótese arriscada: a de que os utilizadores precisam mais da plataforma do que a plataforma precisa deles. A história das redes sociais sugere que esta aposta raramente acaba bem.

